Minha avó teve uma vida longa, e que vida! Foram 98 anos de experiências. Papai conta histórias fortes, emocionantes e tão profundas que não há como deixar de absorver alguma coisa. Na mente ficam as conversas lúcidas até os 95 anos, aproximadamente... Na recordação os conselhos, as piadas e o carinho e amor incondicionais que ela nutria pelo meu pai, filho mais novo dela. Para ela um bom filho, grande amigo e para mim excelente pai.
Da casa da vovó Biló, lembro com saudades do meu tempo de criança em que meus primos, irmãos e eu brincávamos por lá. O quintal era grande e tinha árvores, mas nossos pais preferiam que ficássemos dentro da casa. Tudo bem, a gente queria mesmo era brincar, não importava onde.
Bom, com o passar do tempo, a gente começa a entender que não há mais tempo, nem sequer para ver os parentes. Minhas visitas eram raras nos últimos anos. Duas, ou três semanas antes de vovó falecer, fui vê-la. Ela não estava bem. Na verdade, desde que uma de minhas tias morreu ela nunca mais foi a mesma. Minha avó já tinha perdido o marido e grande amor, quando eu tinha 1 ano. Cinco anos depois, perdeu um dos filhos e quase foi junto. Há quatro anos, morreu minha tia. Daí não percebi mais lucidez e nem vontade de viver na vovó. Mas mesmo com o coração frágil e batendo com a ajuda de um marca-passo ela resistiu por quase um século.
Foi boa mãe, avó dedicada e uma fortaleza. A morte dela, na última quarta-feira, 5 de novembro, trás dor, mas também alívio para os filhos, netos, bisnetos e tataranetos. Hoje ela já não sofre mais, não pode sentir mais nada. Meu pai sente muito a perda dela, mas compreende que foi melhor assim. Todos nós sabemos disso.
Quero lembrar-me sempre das experiências, do sorriso, dos trejeitos e falar engraçado da minha avó, Benedita Côrtes de Miranda. Desejo cuidar dos meus pais com a mesma dedicação que meu pai cuidou dela até o último dia de sua vida. Ele precisa e merece essa recompensa.
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